Thiago Lenine
[Contém spoiler]
Mais uma vez, assim como tenho cometido repetidos erros na minha vida, fui compelido por minha bolha social a, com entusiasmo, assistir “O agente secreto”. Sem dúvida, esse entusiasmo é o grande problema. Se, na vida em geral, tenho tentado manter o mínimo de expectativas a fim de sofrer o mínimo de decepções, como o ser humano é falho, carente, fuleiro e imprevisível por condição existencial, raramente consigo cumprir com essa verdade de autoajuda de banca de aeroporto e fila de farmácias.
Altos anseios que,certamente, tambémsão provocados por uma das poucas coisas que ainda hoje contêm um potencial idílico, utópico e único: a arte. Por alguma razão oculta, tão oculta quanto as definições de beleza, literatura, forma e conteúdo, isso que a gente chama de arte costuma despertar uma expectativa acima do comum, como se ela abrigasse uma espécie de revelação superior do mundo, dosoutros e de nós mesmos.
Assim como no filme Bacurau, esta última produção do afamado (com todos os méritos) diretor Kléber Mendonça Filho vem recoberta de pré-textos de cooperação com instituições francesas e de outros países europeus. Isso reiteradamente concedera valor e brilho aos produtos nacionais seja nas artes, na ciência, na política ou em qualquer outra área de produção da cultura intelectual brasileira desde sempre. Isso também revela, por outro lado,certo compromisso, que deve ser analisado caso a caso, com expectativas europeias daquilo que se produz no Brasil. As relações culturais, políticas e científicas do Brasil com o Ocidente nunca estiveram tão expostas às críticas as mais variadas e o fantasma do colonialismo é cada vez mais um corpo presente. Mas ainda precisamos do dinheiro, apoio e brilho exteriores.
É importante dizer que sempre que um filme ou qualquer outra coisa aborde a ditadura militar, ou seja, um tema histórico sensível, ele estará, necessariamente, trabalhando com um campo da história pública, da memória coletiva, e, portanto, terá um apelo diferenciado em relação a outros tipos de produção.
Como historiador da política, da sociedade, da cultura, da artee de outras coisas que ainda não sei bem o que são é que, portanto, tento compreender tais tipos de manifestações. Inclusive, por aqui, já podemos começar. O filme é magnífico no seu realismo histórico em termos de paisagem, arquitetura,trilha sonora, audiovisual, figurino e objetos. É de se admirar o esforço em se realizar uma imagem do passado que se baseia nas imagens produzidas naquele passado. Desde a película escolhida que simula a dos filmes dos anos 1970 até os produtos, carros, vias, cinemas, parques, urbanismo, casas, lojas, sons, gente e vestimentas que parecem reproduzir a publicidade, artes plásticas e visuais, sonoridades e modas daquela época também. É uma imagem da imagem. E isso é muito bem feito na obra, a sensação da imagem do passado, como aquela que poderíamos ter sozinhos em uma cidade dessas chamadas de históricas que do histórico que pretendem representar tem apenas as edificações do passado, pois nada mais guardamou expõem além disso.O filme expressa um efeito de real impecavelmente realizado.
Assim, uma vez confortavelmenteambientados nesse passado imagético vamos acompanhando a trajetória do herói Marcelo. Sabemos que estamos no Pernambuco de 1977, não só pela informação que o próprio filme nos dá, mas também porretomadas como a da difusão da lenda urbana do “Perna Cabeluda” no Recife daquela época,assim como nas reiteradas imagens do presidente Ernesto Geisel em cada repartição pública exposta. E não são poucas. A repetição, aliás, é um recurso reiteradamente utilizado. A ditadura, em seu oficialato por assim dizer, aí é representada pela Polícia Civil de Pernambuco, com seu nome sempre exposto em primeiro plano nas Veraneios do delegado sádico. Não há, porém, menção ao DOPS ou ao DEOPS. Não há exército, com exceção do mercenário primeiro-tenente expurgado das forças militaresde tão perverso que era. Algo incomum na história do regime militar brasileiroque nunca condenou nenhum militar durante todo o seu período de vigência no Brasil (1964-1985). Com exceção dos expurgos daqueles considerados comunistas ou contra a “revolução”. A informação é de Élio Gaspari.
Se acima disse confortavelmente, devo já ressaltar que esse conforto se resume às poltronas do cinema, pois a tensão é a marca. A sensação é clima de apreensão que caminha nas pontas dos pés e da língua. Issoo que se vive.Sempre esperando por aquilo que se espera em qualquer ditadura como a que tivemos e outras. Compasso de espera.Mesmo o irresistível carnaval que está a ocorrer em diferentes situações não dissipa tal tensão totalizante.
A quebra com a paisagem do passado se dá num corte abrupto para os dias atuais em que tomamos conhecimento de que a história de Marcelo é registrada por uma série de fitas k7 que estão sendo transcritas por duas estudantes que trabalham num projeto sobre ditadura. Esta estratégia narrativa concede uma perspectiva para uma história segmentada e fragmentada. Desde aí, porém, devemos encaminhar algumas opções que parecem ter marcado de maneira infeliz a história do filme naquilo que ela poderia ter de ganhos históricos, estéticos e conceituais. Ou seja, segundo a mera opinião de quem escreve aqui esse já longo texto.
Primeiro, ao optar pelo fragmento das fitas deixadas, o diretor ou o co-produtor da obra (Wagner Moura) poderiam ter construído uma história também fragmentada, a partir de cada fita, de cada sujeito, complexificando os caminhos de um filme que tem duas horas e meia de duração. Mas não é isso o que acontece. Essas fitas, como meio de profusão narrativa poderiam levar o espectador a uma retomada cruzada de sujeitos diversos, muito bem interpretados por todos os excelentes atores e atrizes da produção, inclusive como a de personagens refugiados de Angola, e muitos outros,muitos outros, realizando uma perspectiva bem mais complexa da ditadura do que aquela que o filme apresenta. O espírito de solidariedade que inspira aquela vida na casa dos refugiados ganharia bastante com essa perspectiva fragmentada e cruzada. Mesmo a companheira de Marcelo (codinome de Armando), a falecida Fátima, possui espaço mínimo na história o que é inexplicável do ponto de vista da história das mulheres na ditadura militar e da própria opção memorialística operada na obra. Sequer sabemos claramente como ela morreu. Doente? Assassinada?
Lacunas. O aspecto lacunar é importante e mesmo fundamental em qualquer história da ditadura, mas há muitas presenças também. A quase onipresença do protagonista Marcelo, inclusive, é contraditória com tal aspecto lacunar que, talvez,se tenha tentado expressar. Suspeitamos que há algo mais aí. Antes, porém, de encaminharmos para o final do texto, é preciso também refletir sobre a opção do desfecho do filme. Apesar de suas estratégias, Marcelo não foi feliz em sua fuga. Esta opção é a mais comum neste tipo de obra epor razões que não precisam ser ditas. Porém, haveria os agentes das outras fitas, existem os sobreviventes da ditadura, especialmente aqueles oriundos do campo acadêmico, sejam os estudantes, como é o do quase octagenário José Dirceu, como daqueles que eram docentes, como é o caso de Marcelo. Ou de militantes históricos como Dilma Roussef.
A fixação em um personagem único e, também, em um drama familiar que é muito forte e foi utilizado com sucesso recentemente na obra “Ainda estou aqui”, parece ser espécie de fórmula recorrente para este tipo de obra que garante sucesso tanto aqui quanto no exterior. Não podemos criticar isso, apenas pontuar que há outros caminhos ainda não realizados e que poderiam enriquecer esta película tão bem ambientada, mas não tão bem conduzida em suas opções narrativas.
Por último, há uma informação ao fim do filme que parece ser totalmente descabida. As estudantes que estariam a transcrever as fitas que são as fontes para a história de Marcelo seriam de uma faculdade particular. Por mais que possa haver alguma universidade ou faculdade particular que esteja ou tenha trabalhado com a questão da investigação sobre mortos e desaparecidos durante o regime militar, a grande massa de tal trabalho foi e continua sendo produzida por instituições públicas de ensino superior, por arquivos públicos, por instituições como a Comissão Pastoral da Terra e outras organizações que se desdobram neste tipo de pesquisas e levantamentos há décadas e décadas. Falamos isso por experiência própria. Não entendemos essa opção do réalisateur.
Sobre o título deste comentário, me parece haver uma espécie de saturação Wagner Moura que implica nessa centralização total no ator. Digo ator e não personagem, pois assim que sabemos que seu personagem Marcelo-Armandomorreu, o ator reaparece, agora como o filho de Marcelo, Fernando,já crescido. O mesmo da primeira à última cena. É demais. Será alguma cláusula de presença que provocou até mesmo uma escolha nos caminhos da narrativado filme?
Quem é Tiago Lenine
É professor no Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia (INHIS – UFU). É doutor em História pela Universidade Federal de Minas Gerais UFMG (2016) e pela Universidade de Versalhes (2016) e é mestre pela UFMG (2009). Realizou Pós-Doutorado junto ao Programa de Pós-Graduação em História pela Universidade Federal de Sergipe (PROHIS-UFS). Pesquisa História da Cultura Intelectual, Ensino de História, Teoria da História, História da Literatura, Pós-Abolição e História Política. Em 2019 recebeu o Prêmio “Duas Vezes 22” promovido pela Bibilioteca José Mindlin da Universidade Federal de São Paulo por sua tese de doutorado: “Do ceticismo aos extremos: cultura intelectual brasileira nos escritos de Tristão de Athayde (1916-1928)”. É coordenador do Centro de Documentação e Pesquisa da Universidade Federal de Uberlândia (2019-2024). Desenvolve pesquisa historiográfica e iconográfica para mídias museográficas, didáticas e expográficas.
atualizado em 29/11/2025 - 15:40
